Preparando-se para o (In)esperado: Gestão de Risco em Organizações da Sociedade Civil (OSCs)
Instituto Phomenta • 11 de dezembro de 2023

O objetivo deste artigo é proporcionar uma abordagem dos princípios da Gestão de Risco no contexto das OSCs.


Na mitologia grega, a história de Aquiles e seu calcanhar é amplamente conhecida. Segundo a lenda, sua mãe o mergulhou no rio Estige para torná-lo invulnerável, segurando-o pelo calcanhar quando ainda era uma criança. Embora tenha se tornado indestrutível em todo o corpo, o calcanhar permaneceu sua única vulnerabilidade, desconhecida por ele. Na Guerra de Troia, Aquiles é fatalmente atingido por uma flecha nesse ponto fraco. Essa narrativa é frequentemente utilizada como metáfora para descrever fragilidades em algo aparentemente invencível.


Assim como Aquiles, as organizações podem possuir vulnerabilidades não percebidas. A Gestão de Risco, nesse contexto, assume papel crucial. Se Aquiles tivesse adotado a gestão de risco, teria identificado sua vulnerabilidade e tomado medidas preventivas, como o uso de uma armadura especial para proteger seu calcanhar. Para contextualizar, risco é a probabilidade de perigo ou de insucesso, que pode resultar em vulnerabilidade para organizações do terceiro setor, seja por multas, desastres naturais, problemas de financiamento ou escândalos de reputação. E a Gestão de Risco é uma abordagem estratégica que envolve a identificação, avaliação e eventual mitigação de ameaças e incertezas, visando proteger os objetivos e recursos da organização.


Aplicação da Gestão de Risco em OSCs:

Dentro do universo das OSCs, alguns cenários críticos merecem atenção na gestão de riscos. Segue alguns exemplos:

  • Estatuto desalinhado com o marco regulatório do terceiro setor, aumentando o risco de dificuldades em estabelecer parcerias com o poder público.
  • Ausência de termo de voluntariado, o que pode resultar em processos trabalhistas.
  • Dependência de mais de 70% da receita de uma única fonte, implicando dificuldades caso ocorram problemas com essa fonte.


Principais Etapas para aplicar a Gestão de Risco:


1. Cultura de Gestão de Risco:

É crucial promover uma cultura de gestão de risco, estimulando a conscientização e responsabilidade entre todos os membros da equipe, independentemente do cargo. Uma das formas de se começar a fazer isso é inserir essa temática nas reuniões de equipe para ensinar o conceito e conscientizar sobre a sua importância.


2. Identificação de Riscos:

As equipes de projeto precisam analisar o contexto específico de seu projeto e criar um conjunto de categorias de risco que se adequem às suas necessidades exclusivas. Algumas possíveis categorias de risco do projeto incluem:

  • Risco Regulatório e Jurídico:
  • Mudanças nas leis ou regulamentações que impactam as operações da OSC;
  • Riscos relacionados a questões legais, como litígios ou penalidades;
  • Risco de Financiamento:
  • Flutuações nas fontes de financiamento, incluindo cortes orçamentários;
  • Dependência excessiva de um único financiado;
  • Risco de Reputação:
  • Opinião pública adversa devido à má interpretação de ações ou posicionamentos;
  • Intervenção da mídia que prejudica a imagem da organização;
  • Risco de Parcerias:
  • Parceiros não cumprindo compromissos acordados;
  • Desafios na gestão de relacionamentos com outras organizações ou setores.
  • Risco Operacional e Gerencial:
  • Problemas técnicos ou falhas de infraestrutura que afetam as operações;
  • Erros internos na gestão de projetos ou nas atividades cotidianas;
  • Não ter claro os papéis e responsabilidades de cada colaborador;
  • Risco de Voluntariado:
  • Dificuldade em atrair e reter voluntários qualificados;
  • Conflitos internos entre voluntários ou com a equipe remunerada;
  • Risco de Missão:
  • Desafios em alinhar as atividades com a missão e visão da OSC;
  • Mudanças nas necessidades da comunidade atendida;

3. Avaliação de Riscos:

Após levantar todos os riscos é preciso analisar e avaliar a probabilidade e impacto de cada um. Para isso você pode se questionar: O que aconteceria se isso realmente ocorresse? Qual é a chance disso acontecer?

Para ponderar sobre um risco é preciso entender como a sua seriedade e seu potencial impacto nos elementos-chave do projeto, tais como cronograma, orçamento, escopo e qualidade.

Uma ferramenta comumente utilizada para a gerenciar os riscos e identificar quais são os mais perigosos é a Matriz de Riscos. Ela é geralmente apresentada como uma tabela, onde os riscos são plotados em relação à sua probabilidade de ocorrência e ao impacto que podem ter no projeto.

A estrutura básica de uma matriz de riscos envolve dois eixos:

  • Probabilidade de Ocorrência: Este eixo representa a chance de um determinado risco se materializar. Pode ser categorizado, por exemplo, como baixa, média e alta probabilidade.
  • Impacto: Este eixo representa a magnitude do impacto que o risco teria no projeto, caso ocorra. O impacto pode ser avaliado em termos de cronograma, orçamento, qualidade, entre outros.

Os riscos são então posicionados na matriz de acordo com esses dois fatores. Isso cria uma representação visual que destaca os riscos com maior probabilidade de ocorrência e/ou maior impacto no projeto, como mostrado na imagem a seguir:

Essa visualização permite que a equipe do projeto identifiquem os riscos mais críticos, priorizem ações de mitigação e aloquem recursos de maneira eficiente para lidar com os riscos mais significativos. A matriz de riscos é uma ferramenta valiosa para a tomada de decisões informadas e para o desenvolvimento de estratégias eficazes de gerenciamento de riscos.

4. Desenvolvimento de estratégias de para lidar com os riscos 

Após identificar um risco que ultrapasse a linha de tolerância do projeto, a equipe deve criar uma estratégia para lidar melhor com esse risco. Lembre-se de que o objetivo do gerenciamento de riscos NÃO É eliminar todos os riscos do projeto, pois isso é impossível. O propósito é reconhecer quando é necessário agir diante de um risco que ultrapasse os limites toleráveis do projeto.

Você pode optar por seguir nesses caminhos: 

  • Evitar Riscos: Decidir não incluir (ou fazer de maneira diferente) algo no plano que tenha grande probabilidade ou impacto de risco.
  • Transferir Riscos: Passar (ou compartilhar) a responsabilidade por um aspecto arriscado do projeto para outra parte. Um exemplo comum é o seguro automotivo, onde a responsabilidade por danos e perdas do veículo é transferida para a companhia de seguros.
  • Mitigar Riscos: Agir para diminuir a probabilidade e/ou o impacto de um possível risco. Por exemplo, um projeto preocupado com o roubo de mercadorias pode aumentar a segurança do edifício (adicionando guardas, reforçando portas e janelas) para reduzir a chance de roubo. Além disso, o impacto de um roubo pode ser reduzido armazenando apenas mercadorias suficientes para os próximos sete dias.
  • Aceitar Riscos: Se a probabilidade e o impacto de um risco forem considerados baixos ou aceitáveis, uma organização pode optar por não tomar medidas. Por exemplo, um projeto reconhece o risco de um atraso devido à chuva, mas escolhe aceitar esse risco sem agir para evitá-lo, transferi-lo ou mitigá-lo.


5. Implementação e Monitoramento:

Colocar em prática as estratégias de gerenciamento de riscos e monitorar continuamente os riscos para ajustar as estratégias conforme necessário. Para que isso aconteça de fato é essencial estabelecer uma rotina adequada ao perfil da sua organização, em termos de frequência e formato. Leva tempo até encontrar a melhor forma de fazer o monitoramento e mesmo após encontrá-la seja necessária alguns ajustes. 

 É crucial observar que os riscos mudam com o tempo, portanto, eles devem ser revisados periodicamente, considerando sua probabilidade e impacto. Também é uma boa prática rever as estratégias para garantir que ainda sejam relevantes para o contexto e os riscos atuais.

Para a escolha das práticas de implementação e monitoramento, prefira o simples, invés do complexo e burocrático. 


Ao iniciar a Gestão de Risco em OSCs:

Para iniciar o processo de gestão de risco, comece pelo simples. Treine a mentalidade da equipe e promova a incorporação dessa prática à cultura organizacional. A gestão de risco não é uma tarefa isolada, mas um processo contínuo que deve se integrar ao dia a dia da organização; por isso, é importante ter um ritual.

A gestão de risco, embora possa parecer complexa, é uma ferramenta valiosa para garantir a resiliência e adaptação de uma OSCs em um mundo repleto de incertezas. Ao adotar essa abordagem, as OSCs podem proteger seus recursos, manter a confiança das partes interessadas e continuar a trabalhar eficazmente em prol de suas causas, independentemente dos desafios enfrentados.

Lembre-se, é um processo gradual. Tenha paciência e comece de maneira simples. Muitas vezes, pode não haver recursos para se proteger de todos os riscos, mas é crucial conhecê-los e priorizá-los Não permita que a organização seja surpreendida, como Aquiles na história. Conheça seus pontos vulneráveis!



10 de janeiro de 2024
Durante o quarto encontro da Comunidade Saúde+ 2023, ocorreu o evento intitulado "OSCs no Palco", com o objetivo de estimular o protagonismo das organizações da sociedade civil participantes. Na ocasião, foram constituídos três times, operando como grupos de trabalho, dedicados ao aprofundamento de temas de interesse para empreendedores sociais. A iniciativa, realizada online, permitiu o compartilhamento de trajetórias e experiências diversas. Durante a sessão, os times conduziram apresentações estruturadas, abordando temas previamente definidos e operacionalizados por eles próprios. Cada equipe elaborou uma exibição com duração de até 30 minutos, compartilhando suas descobertas com a comunidade nos seguintes tópicos:
Por Instituto Phomenta 18 de dezembro de 2023
A Jornada de Inovação Social Saúde+ 2021 representou um marco importante no apoio a projetos do terceiro setor que visavam promover a inovação e o impacto social. Durante um período de 10 semanas, seis projetos excepcionais foram selecionados para receber orientação e recursos para impulsionar suas iniciativas. No emocionante evento de encerramento, uma decisão crucial foi tomada: a ONG GESCA seria agraciada com um aporte financeiro significativo de R$ 30.000,00, um investimento crucial para a continuidade do seu notável projeto. Entre as organizações agraciadas, a ONG GESCA se destacou por seu projeto, o "Conectô Jovem". Este programa de inclusão produtiva capacitou jovens da periferia, proporcionando-lhes habilidades valiosas em marketing digital, com o objetivo de apoiar empreendedores locais. Hoje, após mais de um ano de implementação do programa, a ONG está pronta para compartilhar os resultados obtidos pelas quatro turmas que participaram do "Conectô Jovem". Este treinamento em marketing digital destinado a jovens entre 15 e 29 anos, moradores da periferia de Santo Antônio de Jesus, Bahia, representa uma esperança real de aumentar a empregabilidade desses jovens e melhorar sua qualidade de vida após a inserção no mercado de trabalho. O impacto do investimento não se limita apenas ao sucesso do Projeto "Conectô Jovem", pois também possibilitou à organização GESCA fechar três projetos adicionais de inclusão produtiva. Essa iniciativa não só criou oportunidades para os jovens da periferia, mas também abriu portas para um futuro mais promissor. A coordenadora da ONG, Lucilene Souza, expressou sua gratidão ao Instituto Sabin pelo apoio, destacando a importância desse investimento na evolução da organização e na transformação da realidade dos jovens atendidos. Esta é uma história inspiradora de inovação social e parcerias que fazem a diferença em nossas comunidades.
Mulher negra sorrindo representando uma empreendedora social.
Por Instituto Phomenta 3 de outubro de 2023
Você já deve ter ouvido falar que o Saúde+ é uma iniciativa do Instituto Sabin. Mas, o que você talvez não saiba é que essa jornada de impacto social começou antes mesmo da fundação do Instituto. Durante todos esses anos de trajetória, uma missão permaneceu inabalável: impactar a vida das pessoas. Esta é a história do Saúde+, onde o passado se encontra com o presente na busca por transformar vidas.

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